Kelvingrove e duas mulheres numa ilha

Voltei de Glasgow na semana passada e decidi que actualizar o blog ia ajudar-me a combater a minha depressão pós-férias crónica! Fui à Escócia para participar no Ghost Comics Festival, a convite do pessoal da organização, entre eles o João Sobral d’O Panda Gordo. Durante a semana lançámos o James’s Dresses (uma tradução do zine dos Vestidos do Tiago) e depois houve uma feira de publicações e oficinas de bd!

Fiquei a dormir em casa do João e da Joana (quem nos visse aos três ia achar que os portugueses têm todos o mesmo nome, que não é uma suspeição completamente descabida.) e os meus anfitriões tinham uma biblioteca maravilhosa e passei a minha semana lá a ler livros emprestados. Houve um que ainda não me saiu da minha cabeça e que queria falar-vos dele.

Vou admitir: Não sabia que a Tove Jansson também tinha escrito livros para adultos. Pelos vistos este foi o último. Mas houve mais!

Na verdade não é muito diferente de qualquer um dos livros do Moomins, excepto que em vez de ser sobre personagens fantásticas, são todos humanos. Acho que podia ter lido isto em criança e ter gostado, e como adulta reler e descobrir que há coisas muito profundas por baixo de uma superfície aparentemente simples. Mas acho que os livros dos Moomins também são um bocado assim, não é?

Fair Play é sobre duas mulheres que vivem e fazem arte numa ilha, lado a lado. Por vezes viajam, por vezes deixam de ir jantar com amigos para ficarem a ver um filme, às vezes irritam-se, às vezes têm ciúmes. Às vezes é só sobre trabalho, sobre aqueles dias horríveis antes de ter ideias para um projecto, sobre apreciar a companhia uma da outra, e respeitar o espaço e as manias da pessoa com quem vives.

É um livro muito bonito. E escrito de uma forma tão simples que uma pessoa quase que se esquece do quão revolucionário é ler um livro sobre uma relação entre duas mulheres de 70 anos.

Como se isso já não fossem razões suficientes para o ler, a introdução da edição inglesa é escrita pela Ali Smith! Match made in heaven.

Bem, mas voltando a Glasgow, há seis anos tinha ido lá, e na altura visitei praticamente tudo o que havia para ver na cidade e aquilo que me mais me marcou foram os museus. Eram tão interactivos, tão diferentes dos museus sérios e estáticos a que estava habituada. Especialmente o Kelvingrove. Por isso agora fui lá vê-lo outra vez, para matar saudades e confirmar se a memória não me traía.

A melhor maneira de descrever o Kelvingrove é dizer que parece uma mistura entre museu nacional e sala de exposições de centro comunitário. Tem de tudo. É para todos. Acredito que muita gente ache isso caótico, mas eu gosto.

(À entrada do museu estavam os premiados de uma competição de desenho para crianças.)

Se um dia visitarem aviso já que não é um museu que seja para ver todo numa visita. Não é muito grande, mas é realmente um tuttifrutti de colecções e tanta informação dispersa pode ser estonteante. Num momento estás numa sala que fala sobre a história da cidade, depois vês sarcófagos egípcios, a seguir uma sala com modelos de peixes pré-históricos que por sua vez dá para um átrio em que um avião militar paira sobre vários animais embalsamados. É de loucos.

As descrições das obras também são muito menos sérias do que num museu normal. Por exemplo, nesta pintura de Joost van Geel a legenda só dizia:
“The people in this painting seem very elegant, but they are probably a prostitute, the brothel madam and their clients.”
Ri-me tanto que apontei.

(não encontrei o quadro na net, só a versão em gravura.)

Como já sabia a confusão que me esperava, escolhi só algumas salas para explorar. Uma delas era a sala sobre identidade escocesa. Tinham um vídeo em que 10 pessoas falavam sobre 10 objectos da colecção (um para cada). Nem todas as pessoas eram especialistas, ou ligadas directamente a história ou arte por isso aconteciam coisas interessantes como, num dos vídeos, uma metereologista da BBC comentar um quadro de uma paisagem escocesa (Glen Coe, se não me engano) explicando a ciência por trás dos ventos e chuva retratados pelo pintor.

Na entrada há também uma espécie de museu dentro do museu para crianças muito mais novas. Esta exposição está colocada em vitrines mais baixinhas e tem algumas partes interactivas, uma espécia de puzzles para resolver. Em exposição estavam diversos conjuntos de objectos muito diferentes entre si mas que tinham sempre algo em comum. Narizes estranhos, sapatos de várias formas e feitios, peças que parecerem ter caras…

Há algum tempo, desde que fui a esta exposição em Varsóvia, que ando a pensar muito nisto de exposições de arte para crianças. Ou seja, não é a arte que é para crianças, mas a exposição.

Ainda não sei o que é que vai sair destas ruminações, se é que alguma coisa vai sair, mas é uma coisa que me anda a interessar e se alguém que lê isto souber de mais exposições do género sou toda ouvidos!

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