Fui à Feira

A Feira do Livro Infantil de Bologna foi só há um mês mas como depois andei a viajar por Itália, ao ritmo lento do mediterrâneo e a apanhar comboios para todas as estações do ano, ia jurar que tinha passado muito mais tempo.

A pessoa que me deu estadia em Roma era freelancer e numa noite, à conversa sobre os altos e baixos, as incertezas de não ter um trabalho fixo, contou-me que sempre que acordava tinha só uma palavra, uma grande e angustiante dúvida a pairar acima da cabeça dela: “Allora…”.
Que é como quem diz: Então…o que é que vem a seguir? E agora… o que vais fazer hoje? É este o teu plano?

Desde que voltei das férias ando a sentir-me meia em suspensão porque pela primeira vez em muito tempo não há nada urgente para fazer e comecei também eu a acordar com o Allora… a cumprimentar-me pela manhã.

Hoje decidi responder-lhe. Tirei da mala os catálogos, folhetos e cartões de visita que trouxe de Bologna e allora, scrivo qui.

Foi o primeiro ano que visitei a feira do livro de Bologna e a conclusão final que tirei foi: É fixe, mas não sei se é uma boa feira do livro.
Não estou a dizer isto para ser controversa, juro. Aconselho toda a gente a ir lá e ver por si se tiver oportunidade. A sensação com que fiquei é que é uma ótima feira de negócios. Um bom sítio para alguém ir ter reuniões, contactar com editores e agentes ou simplesmente para conhecer outros escritores e ilustradores. Mesmo para alguém que, como eu, não vá para lá com nada planeado, há sempre acasos e felizes coincidências.

Mas ir lá para ver livros…ou seja, ir lá como leitora, ou para procurar inspiração.. não sei se é assim tão bom.

Uma coisa que eu não sabia antes de ir é que nem todos os stands são completamente abertos para o público. Alguns são mesmo só para as editoras terem reuniões, e não são espaços muito convidativos para alguém de fora entrar para dar uma vista de olhos aos livros (ainda que eu às vezes tenha tentado).

O stand do Planeta não era um desses!

Também não há muitas editoras alternativas, por isso praticamente todos os livros interessantes que encontrei eram de editoras que já conhecia. Com a excepção dos stand das asiáticas, onde realmente vi coisas muito fixes e muito diferentes dos livros a que estou habituada.
Ainda assim, encontrei lá 3 editoras mais pequenas que só conhecia pela internet e foi uma boa surpresa vê-las lá e passar tempo a folhear os livros delas ao vivo, foram estas:


Liels un Mazs
É uma editora letã. Há uns meses uma das autoras, a Rebeka Lukosus, expôs no Porto os desenhos que fez para o livro Dilles Tant, publicado por eles. Em geral gosto muito das ilustrações nos livros desta editora, não me posso pronunciar tanto sobre os textos porque não os consigo ler, mas pelo menos pelos resumos em inglês parecem divertidos!

Cicada Books
A Cicada tem muitos livros interactivos, alguns bastante experimentais, e títulos de não-ficção com temas fixes, como um que é só sobre bandeiras do mundo (Flying Colours) e outro sobre tradições folclóricas (Festival Folk). Os livros são muito bem feitos, têm um bom acabamento, isto soa a uma coisa um bocado picuinhas para admirar, mas faz tanta diferença! Aqui em Portugal já vi alguns dos títulos deles na It’s a Book, em Lisboa.

 


Canicola

Um dos seus autores, a Sarah Mazzetti, ganhou o Prémio de Ilustração da Feira de Bologna este ano, com os desenhos no livro I Gioielli di Elsa, publicado pela Canicola. E o resto da colecção não lhe fica atrás, também gostei muito de ler o Io Sono Mare, da Cristina Portolano. Foi fixe chegar a um stand e ver títulos mais para adultos a conviver com livros infantis e não haver uma diferença muito grande entre o formato e estilo de desenho de uns e de outros, só o logo é que os diferenciava. É interessante uma editora conseguir fazer isso. (E eu também já estava a a deitar livros infantis pelos olhos e qualquer coisa de diferente era bom.)

Uma das duplas páginas do livro da Mazzetti.

Com este prémio de ilustração a ser atribuído a um trabalho de bd, e alguns posters espalhados pela feira a anunciar que no próximo ano vai ter mais espaço para a banda desenhada infantil, fico mesmo entusiasmada para saber como vai ser o ano que vem! E também a fazer figas que essa aposta na banda desenhada signifique mais livros de bd infantil vindos deste mundo de bd de autor, e que não seja uma feira dedicada às Disneys, Marvel e outras que tais…

Por fim, tinha ido para Bolonha com uma mala já a abarrotar (o problema de viajar em meia-estação e não saber que roupa escolher e acabar por levar tudo) por isso disse a mim mesma que só podia comprar um livro na feira. Unzinho.

E cumpri. Escolhi este:  

Chama-se Museo Media Vaca, é um livro que convidou 31 ilustradores a desenharem uma versão pessoal de uma obra de arte à sua escolha. Depois essas imagens foram mostradas a um grupo de crianças entre os 6 e 12 anos que descrevem e fazem comentários ao possível significado do desenho. Os dois registos são publicados lado a lado, e os quadros originais no final.

Nem todas as ilustrações são espectaculares, mas a justaposição com o que os miúdos dizem é sempre divertida e é interessante ver as obras de arte a passarem por dois filtros (o do ilustrador e depois o das crianças), faz-me aperceber de possíveis interpretações e detalhes que à partida nem liguei.

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