Dois livros que li nas férias

Há dois anos a Ali Smith vinha ao Porto para o Fórum do Futuro e fui ver a conversa com ela. Nem sei bem porquê. Não a conhecia, e eu nem gosto de ir ouvir falar de livros que ainda não li, mas devia estar com amigos que a queriam ver e fui.
Por algum motivo que também não me lembro a autora não pode estar presente na sessão e falou por skype. Era uma cena um bocado estranha: A cara dela gigante, projectada no palco, a responder a um Richard Zimler pequenino sentado no canto. Ele perguntou-lhe muito sobre o Brexit, a opinião dela sobre o Brexit, os efeitos do Brexit, Brexit isto, Brexit aquilo, e eu estava muito chateada, “Deixem lá a mulher falar do livro dela em paz! Lá porque é escocesa não quer dizer que tenha de falar disto!”
Na altura ela estava a apresentar o Como Ser Ambas, mas também mencionou um livro novo, o primeiro de uma trilogia, que se chamava Outono. Passaram dois anos, dois outonos, e finalmente o li, numa primavera, e percebi as perguntas que achei desajustadas na altura.
Realmente o livro tem muito a ver com o Brexit. De certa forma, sim e não, está lá, é o barulho de fundo e uma das preocupações.
Gosto mesmo muito da maneira como a Ali Smith escreve mas não sei descrever como é excepto dizer que às vezes parece que as palavras estão a dançar à beira de um precipício. É leve e poético, mas está de frente a algo profundo e aterrador.
Não sei se vale muito a pena dizer sobre o que é que o livro é. Até porque acho que pessoas diferentes vão dizer que o livro é sobre coisas diferentes. É sobre uma amizade, é sobre contar histórias, é sobre o peso do passado no presente, é sobre morrer, é sobre uma pintora de pop arte… é muita coisa.

Capa do Lord Mantraste <3

Tinha levado o Outono comigo para Itália, mas acabei de o ler ainda estava em Veneza e aproximava-se o período mais solitário da minha viagem (que até então tinha sido muito mais cheia de amigos, jantares e spritz) e era indispensável ter alguma coisa com que me entreter. Decidida a não gastar dinheiro noutro livro passei por uma daquelas livrarias de segunda mão que tem uma prateleira cá fora com livros para troca. Era suposto levar um e deixar outro, mas levei um e não deixei nada. Perdoem-me santinhos livreiros porque pequei!

Normalmente estes livros grátis não costumam ser nada de jeito, é mais thrillers e assim. Mas um lá no meio chamou-me à atenção, chamava-se An Affair of the Heart. Trouxe-o.
O livro é de 1955 e a sinopse diz que é um romance, mas um romance entre uma mulher inglesa e um país: a Grécia. Está dividido nos quatro capítulos da relação amorosa: First Sight, Estrangement, Reconciliation e Ever After. É uma mistura entre autobiografia, relato de viagem e a história de um país (que abrange os anos 30 aos 50).

Acho que por vezes esta espécie de relatos de um país visto pelos olhos de alguém mais ocidental corre o risco de cair num tom paternalista e não é o caso. Parece-me que Powell era genuinamente curiosa, tinha vontade de perceber a Grécia e os gregos e a sinceridade para admitir também episódios em que agiu mal ou foi teimosa e ridícula.

Foi mesmo interessante ler sobre o confronto de alguém que se quer agarrar à nostalgia que tem por um lugar enquanto o vê mudar, com o tempo e com a guerra (tanto a segunda guerra mundial como uma guerra civil que se deu logo a seguir).

É um livro muito bonito. Estou mesmo contente com o acaso que mo pôs nas mãos. Não está publicado em Portugal, e se tivesse uma editora traduzia-o. (Se tivesse uma editora ia à falência.)

Desde então estou com muita vontade de viajar até aos sítios que ela visita. Especialmente o Heranion de Perachora, que é o primeiro sítio que o livro descreve e, pelas fotos, parece-me que não mudou muito. É a imagem que aparece no cabeçalho desta página!

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